Dietrich Bonhoeffer, pastor martirizado na Alemanha nazista, em sua obra seminal “Discipulado” (1937), alerta para o perigo da chamada “Graça Barata”, um tipo de pregação que não chama o ouvinte ao arrependimento, à mudança de vida, ao caminho e à porta estreitos através dos quais se chega à salvação.
Segundo ele, o termo “graça barata” se referia, dessa forma, à ideia de que o ser humano recebe a salvação gratuitamente (o que está correto), porém, essa gratuidade só se aplica ao salvo, porque foi altíssimo o preço pago para que a salvação fosse dada de graça aos seres humanos.
QUANDO O EVANGELHO PERDE O PESO DA CRUZ
O pastor americano Mark Driscoll, em uma pregação a respeito do perdão, afirma que muitas pessoas tem a tendência de crer que o pecado “não é algo tão sério”… e se valem disso para, de alguma forma, “facilitar a liberação do perdão”.
Ele, porém, enfatiza que o pecado é algo tão grave que exigiu a morte do próprio Deus na pessoa de seu Filho para que fosse resolvido.
Vemos pessoas hoje que pensam de fato dessa maneira.
Quem nunca ouviu alguma destas expressões, ou algo que se assemelhe a elas: “Um pecadinho ou outro, de vez em quando, não faz mal”; “Só Deus pode me julgar”; “Você também peca, não pode falar nada de mim”, etc, etc, etc…?
Essa é a ilustração prática da “graça barata”: um mero conhecimento, uma simples declaração, mas sem que haja de fato mudança de vida: como a dívida diante de Deus está paga, há quem ache que pode permanecer no pecado, mesmo que isso tenha significado que o sangue divino do próprio Jesus tenha de ter sido derramado na cruz para que o ser humano fosse reconciliado com o Pai.
Desse modo, muitos não se preocupam em mudar o seu estilo de vida, buscando viver para aquele que por eles morreu e ressuscitou
E Ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou.
No entanto, uma “conversão” que não produz mudança de vida, uma pregação ou ensino que nega que o pecado seja realmente pecado (ou que diminua sua gravidade), de forma alguma reflete o ensino da Bíblia.
O ÉDEN E A QUEDA: ONDE A GRAÇA COMEÇOU A BRILHAR
Abra sua Bíblia em Gênesis 3:1-19 e verifique como o pecado é algo tão grave, sério e monstruoso, que a desobediência à ordem de não se comer uma fruta trouxe todas as desgraças que vemos no mundo hoje e teria lançado toda a humanidade na condenação eterna caso Deus não fosse a pura expressão do amor e da misericórdia.
Amor e misericórdia esses que foram demonstrados de imediato, com a promessa da vinda do Salvador (verso 15) e na proibição do acesso à árvore da vida. Sim, a expulsão do paraíso foi uma dura punição para Adão e Eva e seus descendentes, ou seja, toda a raça humana (uma vez que paraíso e pecado não convivem), mas não o fato de Deus ter tirado a árvore da vida de seu alcance
Então disse o SENHOR Deus:
Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente, O SENHOR Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.
E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida.
A misericórdia de Deus já começou a ser demonstrada na própria queda do homem, afastando a possibilidade de que, como dizemos na gíria, “a emenda saísse pior do que o soneto”: em meio ao desespero de saberem que estavam condenados à morte, nossos primeiros pais poderiam correr à árvore da vida e comer de seu fruto, mas isso apenas iria piorar o que já estava ruim.
Ao lermos os versículos relacionados acima, podemos ver que se o ser humano comesse da árvore da vida voltaria a ser imortal (pois o salário do pecado é a morte, como se vê em Romanos 6:23), mas não recuperaria o seu estado de impecabilidade: uma vez tendo pecado, já não era santo e, tornando-se culpado, já não era inocente.
Dessa forma, caso comesse da árvore da vida após cair em pecado, o ser humano estaria condenado a viver eternamente neste mesmo estado pecaminoso, coisa que de forma alguma Deus poderia admitir.
A GRAÇA QUE CUSTOU TUDO: VIVER PARA QUEM MORREU POR NÓS
Dessa forma, a graça divina pode até ser, de fato, gratuita para o ser humano, porém isso não significa que seja “barata”, como muitos hoje acreditam: mesmo que não reconheçam, ela exigiu um preço que Deus, apenas por ser inconcebivelmente misericordioso, decidiu pagar.
Exigiu um pagamento que apenas o próprio Deus poderia realizar, e Ele, de fato, o fez, mostrando o quão preciosa é a sua graça.
Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.
Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça.
É por isso que Paulo, ao mencionar que “onde abundou o pecado, superabundou a graça”, não está dizendo que quanto mais o ser humano pecar mais graça Deus dará, mas sim que o Criador teve de conceder uma graça maior do que o pecado para que este pudesse ser sobrepujado!
Isso é tanto verdade que, logo na sequência da carta, em 6:1-4, ele afirma:
Que diremos pois?
Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?
De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?
Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?
De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.
Isso é reconhecer a preciosidade da graça de Deus!
Algo tão inimaginável e extraordinário que, como podemos ver em 1ª Pedro 1:12, até os anjos “anelam perscrutar”, ou seja, está além até mesmo da compreensão angelical!
Por isso o chamado à mudança, à novidade de vida, e a lembrança de que não se deve negligenciar tão grande salvação, sob pena da perdição eterna:
Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram.
A graça de Deus é, de fato, graça para o ser humano, mas não o foi ou o é para Ele próprio, que abriu mão de tudo, encarnando-se na pessoa de seu Filho e obedecendo com perfeição à Lei no lugar da humanidade decaída, ainda se submeteu a uma punição que não era dele, mas dos pecadores.
De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas fez a si mesmo de nenhuma reputação, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
Essa graça é por demais preciosa e, embora hoje o carregar cotidiano da cruz seja um peso (Lucas 14:27), isso não se compara à glória que os salvos receberão na eternidade (Romanos 8:18), mesmo sem merecê-la.
Nos Laços do Calvário
TÍTULO ORIGINAL: GRAÇA PRECIOSA
MANUTENÇÃO DO FRONT
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